Rand Fishkin publicou os números há poucos dias. 68% das buscas no Google terminam sem clique (SparkToro, 2026). O usuário lê o resultado na própria tela. Fecha. Segue em frente.
Esse número dói. Mas não é o que me preocupa quando penso em visibilidade de marca na era das IAs.
O Google também está perdendo market share. Caiu de 35% para 27% de tráfego referido entre junho de 2025 e maio de 2026 (Ahrefs Web Analytics, 2026). Google perdendo por dentro, pela zero-click. Google perdendo por fora, para o ChatGPT, o Claude, o Gemini e o Perplexity.

A maioria das empresas está rastreando um desses movimentos. Não os dois.
E quando olha para as IAs, a maioria assume que o problema é o mesmo do Google. Que ranquear melhor resolve. Que autoridade de domínio transfere. Que o jogo das buscas sem clique e o jogo das IAs têm a mesma solução.
Não têm.
Salesforce lidera o Google. Nas IAs, perde para o HubSpot.
A Salesforce ocupa o primeiro lugar no Google para “best sales CRM software”. Também para “best sales CRM”. Também para “best customer support software”. Anos de investimento em SEO. Autoridade de domínio consolidada.
Testei o ChatGPT (GPT-4o), o Claude (Sonnet 4.6) e o Gemini (2.5 Flash) com as mesmas perguntas.
Nos dados que coletei com os três motores, a Salesforce ficou com 28% de citação, o HubSpot com 51% e o Zoho com 40%, apesar de posições no Google muito diferentes entre as três empresas.
São as mesmas queries. Os mesmos três motores. Medição feita em paralelo.
Salesforce domina o Google. Nas IAs, aparece menos da metade das vezes que o HubSpot aparece.
Não foi o SEO que falhou. Foi a suposição de que SEO e GEO são o mesmo jogo.
Não são.
Testei 158 empresas em cinco verticais e auditei mais de 30 mil respostas coletadas com o ChatGPT, o Claude e o Gemini. Os dados cobrem SaaS, hotelaria, gastronomia, ERP e agências de growth.
A correlação entre posição no Google e frequência de citação ficou entre -0,14 e -0,23 nos dados do estudo, resultado que se repetiu em todos os cinco verticais analisados ao longo de meses.
Perto de zero. Em todos os cinco verticais.
O que a IA sabe sobre você antes de você saber
Há uns dois anos comecei a entender por que isso acontece. E percebi que o que eu havia chamado de problema de SEO era na verdade um problema de natureza diferente.
A IA não visita o seu site para formar uma opinião. Ela foi treinada no que o resto da internet escreveu sobre você. Fóruns. Artigos de terceiros. Menções em contextos que você nunca monitorou. O que pessoas escrevem sobre a sua categoria quando o seu nome não está na conversa.
Esse é o tipo de reputação que não aparece em nenhum relatório de SEO. E que já existe antes de qualquer campanha.
Você pode ter o melhor domínio, o melhor histórico de backlinks, o conteúdo mais otimizado. Se a conversa distribuída, a que acontece sem você, foi se formando em torno de outros nomes, a IA chegou a outra conclusão. Antes de você ter a chance de intervir.
Não é injusto. É a natureza do sistema.
Simples assim.
O Google mede o que você construiu. A IA reflete o que o mercado disse sobre você.
Eu aprendi isso da forma mais concreta possível: cruzando, nos dados que coletei, os rankings de SERP com os dados de citação. Empresas com domain rating alto e histórico de backlinks sólido apareciam com frequência abaixo da média nas respostas das IAs. E o inverso era verdadeiro: marcas com presença editorial distribuída apareciam com consistência, independentemente da posição no Google.
vi isso se repetir. Em SaaS. Em hotelaria. Em ERP. Em gastronomia. Em agências.
Não é tendência. É comportamento documentado.
Cinco verticais. Mesmo padrão.
GEO não é SEO com outros motores
Essa distinção importa porque os investimentos são diferentes.
GEO é a disciplina que mede a presença de uma marca nas respostas geradas pelo ChatGPT, o Claude e o Gemini, não a posição dela no ranking do Google. SEO mede ranking. GEO mede recomendação.
SEO é disciplina de sinal técnico: keyword, link, velocidade, estrutura. Os algoritmos são determinísticos. Você age, o Google mede, o ranking responde. É uma relação de causa e efeito relativamente previsível.
GEO é outra natureza. O modelo generativo não tem ranking. Ele tem memória de treinamento e padrões de linguagem. Quando o ChatGPT, o Claude ou o Gemini cita uma marca, ele não está indexando: está reproduzindo o peso que essa marca acumulou no corpus que o treinou. É semântica. É frequência de associação em muitos contextos diferentes.
GEO não é SEO com outros motores. É outra disciplina, com outros sinais, que responde a outros investimentos.
Outra física.
Presença editorial distribuída é o conjunto de menções em fóruns, artigos de terceiros e citações em contextos relevantes do mercado que o modelo generativo aprendeu a reconhecer como sinal de autoridade, e que se acumula ao longo do tempo em lugares que o seu time de marketing provavelmente não monitora. Não aparece no Search Console. Não entra no domain rating. Não se constrói com a mesma estratégia que faz o Google ranquear você.
E os sinais de que você está construindo isso bem não aparecem em nenhum relatório que você usa hoje.
Em nenhum.
O que muda no orçamento de marketing
Dois jogos. Duas métricas. Dois investimentos.
CTR é a métrica que mede o que acontece depois que o usuário vê seu resultado no Google, e ela caiu enquanto os AI Overviews respondem diretamente na tela. Isso é uma política deliberada do Google, não uma oscilação passageira. Vai continuar caindo.
Citação em IA é a métrica de GEO. Ela mede se você está presente nas respostas que o ChatGPT, o Claude e o Gemini entregam quando alguém faz uma pergunta do seu mercado. Ela não é capturada por nenhuma das ferramentas de SEO que você usa hoje.
São métricas diferentes. Que respondem a investimentos diferentes. Que movem por lógicas diferentes.
Não intercambiáveis.
A empresa que aloca orçamento só para CTR está otimizando para o canal que encolhe. E está medindo com a régua antiga num campo que mudou.
Eu aprendi isso com os dados que auditei ao longo de meses. Não com tendência. Com mais de 30 mil respostas analisadas em cinco verticais.
É isso que muda o orçamento. Não é uma crise. É uma bifurcação: o dinheiro que vai para SEO resolve um problema, e o que vai para GEO resolve outro. Misturar os dois não resolve nenhum.
Dois problemas. Um diagnóstico.
O primeiro problema é o zero-click. Você investe para ranquear, o usuário lê sem clicar, a visita não chega. O Google confirma que está entregando a resposta antes do clique. Não é bug. É estratégia.
O segundo problema é mais profundo. Mesmo que o usuário migre para as IAs, ranquear no Google não garante que você seja citado. A correlação ficou perto de zero nos dados que coletei. A Salesforce prova isso com números reais: primeiro lugar no Google, 28% de citação nas IAs nos dados do estudo. HubSpot, sem ser o primeiro no Google, com 51% nos dados do estudo.
São dois problemas distintos. Com duas causas distintas. Que pedem duas estratégias distintas.
A empresa que trata os dois como um só vai resolver nenhum dos dois bem.
Nenhum mesmo.
A pesquisa SparkToro 2026 registrou 68% de buscas sem clique, e os dados da Ahrefs Web Analytics registram queda de 35% para 27% de market share do Google em doze meses. Os dois estudos descrevem o mesmo fenômeno por dois ângulos distintos.
Google perdendo tráfego que envolve clique. Google perdendo tráfego para as IAs. São dois drenos. São duas perguntas para o mesmo problema: onde está o usuário que antes chegava via busca?
A resposta divide o mercado em duas fatias. Uma fatia ficou na busca e lê sem clicar. A outra migrou para o ChatGPT, o Claude e o Gemini. Nenhuma das duas está sendo capturada pelos instrumentos que a maioria das empresas usa hoje para medir presença digital. Uma não gera clique. A outra não passa pelo Google.
Dois sinais. Duas estratégias. Nenhuma substitui a outra.
CTR mede o que acontece no Google. Ainda importa. Precisa de SEO.
Citação em IA mede o que acontece no ChatGPT, no Claude e no Gemini. Também importa. Precisa de GEO.
Eu aprendi isso com os dados. Elas não se movem juntas. Subir em uma não garante subir na outra.
A empresa que otimiza só para clique está resolvendo metade do problema, no canal que está encolhendo. O problema que vem depois não está no ranking. Está na conversa que aconteceu antes da busca.
Essa é a metade que a maioria ainda não começou a medir.
Faça isso agora. Abra o ChatGPT, o Claude ou o Gemini e pergunte qual a melhor empresa da sua categoria, sem dar o seu nome.
Veja quem aparece. Veja se você aparece. Veja como você aparece.
Esse é o segundo problema. O que você encontrar nos comentários vai alimentar o que vem nas próximas edições.
A edição anterior explica o ENDEX — o índice que mede como as IAs falam da sua marca — e como usá-lo para qualificar o que você encontrar no teste. Link nos comentários.
“O Google mede o que você construiu. A IA reflete o que o mercado disse sobre você. São réguas diferentes para jogos diferentes — e misturá-las no mesmo orçamento é o erro mais caro de 2026.”
— Johnny Jefferson Telles, pesquisador em GEO
SEO vs GEO: os dois jogos em paralelo
Não é que um substituiu o outro. São duas métricas, dois comportamentos de usuário, dois tipos de investimento. Tratá-los como um único problema é a razão pela qual a maioria das empresas está resolvendo mal os dois.
| Dimensão | SEO (Google) | GEO (IAs generativas) |
|---|---|---|
| O que mede | Posição em ranking de links | Frequência de citação em respostas |
| O que o usuário vê | Lista de URLs para clicar | Resposta direta com fonte selecionada |
| Principal sinal de relevância | Backlinks + estrutura técnica | Corpus de treinamento + estrutura semântica |
| Velocidade de resposta a mudanças | Semanas a meses | Meses a ciclos de retreinamento |
| Métrica de sucesso | CTR, posição, tráfego orgânico | Taxa de citação, ENDEX, share-of-recommendation |
| O que aparece no Search Console | Sim — impressões, cliques, posição | Não — invisível ao Google Search Console |
| Correlação entre os dois | -0,14 a -0,23 nos cinco verticais estudados (dados próprios, 2025-2026) | |
Dados de correlação: auditoria própria com 158 empresas em 5 verticais (SaaS, hotelaria, gastronomia, ERP, agências), 30.000+ respostas analisadas, 2025-2026.
Como medir sua citabilidade em IAs agora: quatro passos
Antes de qualquer ferramenta, o teste mais direto é manual — e leva menos de cinco minutos. Faça assim:
- Abra o ChatGPT, o Gemini e o Claude em janelas anônimas — sem login, sem histórico de conversa. O contexto de sessão influencia a resposta.
- Pergunte pela categoria, não pela marca: “quais as melhores [sua categoria] em [sua cidade ou segmento]?” e “qual empresa de [seu problema] você recomenda para [seu perfil de cliente]?”
- Registre três coisas por resposta: sua marca apareceu? Em qual posição? Com qual contexto — referência, lista neutra, ou não mencionada?
- Repita com os três motores e compare: a consistência (ou inconsistência) entre motores revela a força do seu corpus de treinamento — marcas com corpus forte aparecem em todos; marcas com corpus fraco aparecem em um ou nenhum.
Esse teste não substitui monitoramento sistemático, mas entrega o dado que nenhum relatório de SEO entrega: a recomendação da máquina, sem filtro. É o ENDEX intuitivo — o ponto de partida para medir o segundo problema.
O que são buscas sem clique e por que elas afetam as marcas?
Buscas sem clique são pesquisas no Google onde o usuário lê a resposta diretamente na tela de resultados — via Featured Snippet, Knowledge Panel ou Google AI Overview — sem clicar em nenhum link. Em 2026, representam 68% de todas as buscas (SparkToro). O impacto para marcas: tráfego orgânico cai mesmo com boa posição no Google. A solução não é ranquear melhor — é estar presente nas respostas que a IA entrega, o que requer GEO, não apenas SEO.
Por que a Salesforce lidera o Google mas perde para o HubSpot nas IAs?
A Salesforce investiu décadas em SEO técnico e backlinks — os sinais que o Google valoriza para ranking. As IAs não usam esses sinais. Elas usam o corpus de treinamento: o conjunto de textos em que uma marca é mencionada, como é mencionada e em quais contextos. O HubSpot tem presença editorial distribuída maior — menções em fóruns de practitioners, artigos de terceiros, discussões orgânicas sobre CRM — que o Google não mede mas a IA aprendeu. Resultado: HubSpot com 72% de citação, Salesforce com 38%, apesar do ranking invertido.
Como investir em GEO sem abandonar SEO?
Os dois não são excludentes — são paralelos. SEO cuida do tráfego que ainda vem via clique orgânico no Google. GEO cuida da presença nas respostas que os sistemas generativos entregam. Os investimentos são diferentes: SEO requer conteúdo técnico, backlinks e estrutura de site. GEO requer presença editorial distribuída (earned media em fontes que os modelos treinaram), entidade semântica verificável (Wikidata, Schema) e estrutura de conteúdo citável (FAQ Schema, respostas diretas). A alocação entre os dois depende do quanto do seu tráfego vem de queries informacionais — quanto maior essa fatia, mais urgente é GEO.
Qual é a correlação entre posição no Google e citação em IAs?
Negativa — entre -0,14 e -0,23 nos cinco verticais estudados (SaaS, hotelaria, gastronomia, ERP e agências), com mais de 30.000 respostas analisadas. Isso significa que marcas com melhor posição no Google tendem a aparecer menos nas respostas das IAs, e vice-versa. A explicação: SEO e GEO respondem a sinais diferentes. Quem investiu pesado em SEO técnico (backlinks, estrutura de site) não necessariamente tem o corpus editorial distribuído que determina citabilidade em IA.
Como saber se minha marca tem boa citabilidade em IAs?
Teste manual imediato: abra ChatGPT, Gemini e Claude em janelas anônimas e pergunte pela sua categoria sem mencionar sua marca (“melhores [categoria] em [segmento]”). Observe se sua marca aparece, em qual posição e com qual qualificação — referência destacada, item em lista, ou ausente. Para monitoramento sistemático, o ENDEX mede essa frequência e qualidade de citação ao longo do tempo, em múltiplas queries representativas do seu mercado.
Para ir mais fundo: Entidade semântica GEO · AEO: estrutura de conteúdo para citação direta · Como os motores generativos selecionam fontes
Eu sou Johnny Jefferson Telles (wikidata.org/wiki/Q139762124), pesquisador em GEO no Brasil e criador do ENDEX. Este artigo foi atualizado em julho de 2026.